5 de set de 2012

ANIMAIS


Roberto Curt Dopheide

Eu adoro animais. Cuido dos meus, sigo o que já dizia e fazia minha avó: “Os animais sempre tem de receber comida antes que as pessoas da casa se alimentem”. Vê-se que bons costumes vêm de longe. Detesto vê-los maltratados, abandonados, descartados ou sofrer qualquer tipo de agressão. Ponto. Agora, o que está se falando ultimamente sobre animais versus seres humanos está fugindo um pouco ao bom senso. Lá em casa coloco água doce para os beija-flores. Não, nem vou dizer se é com açúcar ou com um preparado especial comprado a preço caro em lojas especializadas, por “não fazer mal” aos fígados dos bichinhos, deixar suas penas reluzentes e não lhes causar problemas de vista ou pedra nos rins. Mas, por mais bonitos que sejam, basta um grupinho deles se reunir e sempre há um que não se contenta em sorver a água doce – ele tem de atacar os que tentam se alimentar e o faz com expressiva agressividade. Já vi um literalmente atravessar a asa do outro com seu bico. Aí, vejo uma gravura de duas leoas caminhando por uma estradinha de uma reserva qualquer, tendo um filhotinho ao seu lado. Que ternura. Saibamos, entretanto, que se por força da natureza um novo leão macho se tornar chefe do grupo, matará todos os filhotes do macho anterior. E nós dizemos: é a natureza! Os humanos, em geral, não fazem isso, os leões todos o fazem. Sou contra touradas, contra a farra do boi, contra o adestramento de animais com quaisquer meios que não sejam carinhosos e, por mais que gostasse de ver os animais de circo, por questão de bom senso abro mão por saber como são “domesticados”. Já tive pássaros engaiolados, hoje os prefiro livres. Tenho uma gata que de vez em quando apanha um rato. Achamos bonitinho quando ele brinca com o ratinho, ainda vivo, lançando-o para lá e para cá, porque gostamos dos gatos mas não queremos os ratos. Os ratos transmitem doenças (é da natureza?). Gatos e cães também as transmitem, humanos também a transmitem, e a natureza que cuida de todos parece ter dado a cada um prós e contras. Talvez, se déssemos aos ratos uma dieta equilibrada e não os sujeitássemos a viver em esgotos e terrenos baldios, eles nos retribuíssem não transmitindo mais doenças e talvez os gatos o entendessem e não judiariam mais deles. Afinal, para os ratinhos aquele tratamento que o felino lhes dá deve ser bastante torturante e traumático. Mas é da natureza... Recentemente meu cão apanhou um gambá: em questão de segundos o matou, com algumas e firmes sacudidelas. Gambás também são bichos, mas mais uma vez a natureza não foi tão condescendente com uns quanto com outros. Cachorros não sabem que não devem adentrar terrenos vizinhos, mas quando um pequenino o faz, não é raro ser estraçalhado por um grandão. Os donos dos grandes gostam tantos dos seus quando os dos pequenos, mas é da natureza. É, de fato, lindo ver dois golfinhos naquelas paisagens e pinturas, saltando como se fossem espelho um do outro, a lua cheia ao fundo, o mar brilhando como prata. As sardinhas sentem pavor de golfinhos, mas a natureza o fez assim. Eu tinha um casal de amigos cujo filho foi picado por uma cobra venenosa e morreu. Sei bem como vivem desde então: cicatrizes no coração, dor que nada aplaca. Mas se eu vir uma cobra peçonhenta em meu quintal, devo deixá-la, para não desequilibrar o ecossistema. Mesmo que, sem maldade alguma, eu caminhe um dia por lá, admirando a natureza, e ela me morda. Afinal, dirão, estou invadindo o território dela. Quando um bando de gorilas ou outro tipo de macacos invade o território de outro grupo, os invasores são violentamente rechaçados e normalmente a demanda só se encerra quando um grupo aniquilou o outro – seriam assassinatos? Os vencedores geralmente ficam só com as fêmeas... algo parecido com os humanos, desde tempos bíblicos. Também não houve respeito ao território. Então: carinho sim, respeito sim, cuidados sim mas o que está se vendo cada vez mais são exageros. Submeter a “natureza” de cães e gatos a sapatinhos, fitinhas, roupinhas e bonés, entre outros, me parece um pouco de exagero. Eu não me arriscaria a dizer que só por balançarem o rabinho estão contentes de usar aquilo. Diria antes que estão contentes apesar daquilo, pois de uma coisa tenho certeza: decididamente não é de sua natureza! Dar ração de cães para gatos ou vice-versa? Não, isso é danoso. Ver meninos catando lixo, entretanto, nos parece mais digerível, mais tragável. Quando nossas crianças não sofrerem mais fome, nem maus tratos, e tiverem educação e segurança de verdade, o tratar bem aos animais será uma mera conseqüência. Cuidemos pois bem dos bichanos e bichinhos, sim, mas não caiamos na celeuma de dizer que animais só tem coisas boas e humanos só tem coisas ruins. No fundo, no fundo, todos ainda temos um quê de aquele ser o “nosso” cão e de achar que ele pense que nós somos o “seu dono”. Ainda não nos passou pela cabeça que, se são tão perfeitos assim, os donos pudessem ser eles e nós fôssemos os “seus” humanos, vivendo do jeito deles, como a natureza originalmente o planejou? Não custa refletir...

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