5 de set. de 2012

ANIMAIS


Roberto Curt Dopheide

Eu adoro animais. Cuido dos meus, sigo o que já dizia e fazia minha avó: “Os animais sempre tem de receber comida antes que as pessoas da casa se alimentem”. Vê-se que bons costumes vêm de longe. Detesto vê-los maltratados, abandonados, descartados ou sofrer qualquer tipo de agressão. Ponto. Agora, o que está se falando ultimamente sobre animais versus seres humanos está fugindo um pouco ao bom senso. Lá em casa coloco água doce para os beija-flores. Não, nem vou dizer se é com açúcar ou com um preparado especial comprado a preço caro em lojas especializadas, por “não fazer mal” aos fígados dos bichinhos, deixar suas penas reluzentes e não lhes causar problemas de vista ou pedra nos rins. Mas, por mais bonitos que sejam, basta um grupinho deles se reunir e sempre há um que não se contenta em sorver a água doce – ele tem de atacar os que tentam se alimentar e o faz com expressiva agressividade. Já vi um literalmente atravessar a asa do outro com seu bico. Aí, vejo uma gravura de duas leoas caminhando por uma estradinha de uma reserva qualquer, tendo um filhotinho ao seu lado. Que ternura. Saibamos, entretanto, que se por força da natureza um novo leão macho se tornar chefe do grupo, matará todos os filhotes do macho anterior. E nós dizemos: é a natureza! Os humanos, em geral, não fazem isso, os leões todos o fazem. Sou contra touradas, contra a farra do boi, contra o adestramento de animais com quaisquer meios que não sejam carinhosos e, por mais que gostasse de ver os animais de circo, por questão de bom senso abro mão por saber como são “domesticados”. Já tive pássaros engaiolados, hoje os prefiro livres. Tenho uma gata que de vez em quando apanha um rato. Achamos bonitinho quando ele brinca com o ratinho, ainda vivo, lançando-o para lá e para cá, porque gostamos dos gatos mas não queremos os ratos. Os ratos transmitem doenças (é da natureza?). Gatos e cães também as transmitem, humanos também a transmitem, e a natureza que cuida de todos parece ter dado a cada um prós e contras. Talvez, se déssemos aos ratos uma dieta equilibrada e não os sujeitássemos a viver em esgotos e terrenos baldios, eles nos retribuíssem não transmitindo mais doenças e talvez os gatos o entendessem e não judiariam mais deles. Afinal, para os ratinhos aquele tratamento que o felino lhes dá deve ser bastante torturante e traumático. Mas é da natureza... Recentemente meu cão apanhou um gambá: em questão de segundos o matou, com algumas e firmes sacudidelas. Gambás também são bichos, mas mais uma vez a natureza não foi tão condescendente com uns quanto com outros. Cachorros não sabem que não devem adentrar terrenos vizinhos, mas quando um pequenino o faz, não é raro ser estraçalhado por um grandão. Os donos dos grandes gostam tantos dos seus quando os dos pequenos, mas é da natureza. É, de fato, lindo ver dois golfinhos naquelas paisagens e pinturas, saltando como se fossem espelho um do outro, a lua cheia ao fundo, o mar brilhando como prata. As sardinhas sentem pavor de golfinhos, mas a natureza o fez assim. Eu tinha um casal de amigos cujo filho foi picado por uma cobra venenosa e morreu. Sei bem como vivem desde então: cicatrizes no coração, dor que nada aplaca. Mas se eu vir uma cobra peçonhenta em meu quintal, devo deixá-la, para não desequilibrar o ecossistema. Mesmo que, sem maldade alguma, eu caminhe um dia por lá, admirando a natureza, e ela me morda. Afinal, dirão, estou invadindo o território dela. Quando um bando de gorilas ou outro tipo de macacos invade o território de outro grupo, os invasores são violentamente rechaçados e normalmente a demanda só se encerra quando um grupo aniquilou o outro – seriam assassinatos? Os vencedores geralmente ficam só com as fêmeas... algo parecido com os humanos, desde tempos bíblicos. Também não houve respeito ao território. Então: carinho sim, respeito sim, cuidados sim mas o que está se vendo cada vez mais são exageros. Submeter a “natureza” de cães e gatos a sapatinhos, fitinhas, roupinhas e bonés, entre outros, me parece um pouco de exagero. Eu não me arriscaria a dizer que só por balançarem o rabinho estão contentes de usar aquilo. Diria antes que estão contentes apesar daquilo, pois de uma coisa tenho certeza: decididamente não é de sua natureza! Dar ração de cães para gatos ou vice-versa? Não, isso é danoso. Ver meninos catando lixo, entretanto, nos parece mais digerível, mais tragável. Quando nossas crianças não sofrerem mais fome, nem maus tratos, e tiverem educação e segurança de verdade, o tratar bem aos animais será uma mera conseqüência. Cuidemos pois bem dos bichanos e bichinhos, sim, mas não caiamos na celeuma de dizer que animais só tem coisas boas e humanos só tem coisas ruins. No fundo, no fundo, todos ainda temos um quê de aquele ser o “nosso” cão e de achar que ele pense que nós somos o “seu dono”. Ainda não nos passou pela cabeça que, se são tão perfeitos assim, os donos pudessem ser eles e nós fôssemos os “seus” humanos, vivendo do jeito deles, como a natureza originalmente o planejou? Não custa refletir...

22 de ago. de 2012

WIKILEAKS

O Sr. Julian Assange (Wikileaks) refugiou-se na embaixada equatoriana em Londres. Caçado por divulgar documentos confidenciais do mundo pelo mundo, gasta-se R$ 200 mil diários com o cerco à embaixada, para que não fuja. Ele, por sua vez, diz que só sai se não for extraditado para os EUA, onde corre risco de ser condenado à morte pelo seu crime de divulgar ditos papéis. Penso que devem estar em jogo interesses gigantescos para se gastar uma quantia dessas por dia! Mas, por mal que eu pergunte: quem não cuidou os suficiente destes documentos para que ele pusesse mão neles? O que ele divulgou eram, entre outros, comentários de governos sobre outros governos, algo como “maracutaias” que não deveriam ser divulgadas. Os EUA moveram mundos em termos de lhe cortar os recursos financeiros, tentando por um fim à divulgação. Não vi nada que ele tenha espalhado que não se constitua de coisas vergonhosas acerca de governos. Se eram secretas por isso, e agora querem condená-lo, não é algo como dizer: “Você fofocou sobre meus assuntos particulares, agora quero mata-lo!”? E viva o berço da democracia e todos que tem podres a escolher. Quem mandou ele ser o elo mais fraco dessa corrente?

3 de jun. de 2012

MATURIDADE

 
Sim, eu sinto: já não sou mais o mesmo!
Agora, às vezes, pensando a esmo
lembro do que foi belo e não volta.
A casa barulhenta, os sonhos, o almoço
Lembram-me que um dia já fui moço.
Hoje não passo de um poço de revolta.

 
Será que valeu tudo que fiz?
Será verdade que um dia se foi feliz
ou será que foi tudo um sonho confuso,
um pesadelo obscuro que desfalece?
Vamos diminuindo, e se pensa que se cresce
Num louco redemoinho difuso.

 
O que valeram a infância e os amores,
os sacrifícios, as lutas, as decepções e as dores
que fizeram com que aprendêssemos o quê?
Conseguimos respostas às nossas perguntas?
Acaso bondade e recompensa andam juntas,
se continuamos a tudo indagando “Por quê”?

 
Tantos grandes passaram pela vida terrena!
Tantos mostraram o quanto a humanidade é pequena!
Esquecidos foram todos por igual!...
E se bons e maus ficaram na história
(Se é que dos maus não se guarda mais memória!)
O que valeu fazer o bem e não o mal?

 
E se é verdade que se guarda na Terra
muito mais os que fizeram a guerra,
perpetrando atrocidades, fazendo o que não se faz...
E se reinou mais a mentira e a aleivosia;
e se valeu tão pouco quem plantou alegria
vou sentindo que o bem já não me apraz!

 
Vou levando a vida, vou vivendo; o que resta?
Se ao apagarem-se as luzes da festa
o que era para ser grande nos apequenou?
Sobra seguir neste mundo demente,
engolir o idiota, aturar o insolente,
pois o bom e o mau, por igual, se passou...

 
A maturidade que julgamos enfim alcançada
nos mostra não mais: ela não vale nada!
Não foi mais que uma doce quimera!
Tanto lutamos para tanto conseguir
e no próximo instante já temos que partir
para o que julgamos ser... e não era!

 
Roberto Curt Dopheide

29 de mai. de 2012

AMOR MENINO

Amor Menino  (Pe. Antônio Vieira)

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê que não via; e faz-lhe crescer as asas com que voa e foge. A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar a menos.

8 de mai. de 2012

MEU GRITO

MEU GRITO

Roberto Curt Dopheide

Leio e ouço estarrecido: 120 milhões de dólares pagos num leilão pela tela de “O Grito”. Fico sem palavras! Não é La Gioconda ou a Santa Ceia de Da Vinci, é um arremedo de espantalho que pretensamente expressa, aos olhos dos críticos e entendidos, todo o clamor da humanidade. Imagino o cidadão comum, a quem o sopro da sorte tenha feito ganhar na loteria um prêmio acumulado de 50 milhões de reais; ele poderia comprar 25% deste quadro (e, francamente, voltar a ser mais pobre que antes, se o fizesse).
Imagino Mozart ou Beethoven compondo uma sinfonia cacofônica, sem qualquer harmonia ou beleza, uerendo expressar com ela todo o clamor da humanidade. Ou Shakespeare escrevendo um texto com palavras trocadas e sem nexo, expressando a loucura do ser humano. Ou Michelângelo ter legado um bloco de granito em que fosse visível apenas um olho humano apavorado e ser, por isso, endeusado como tendo esculpido a mais profunda das expressões do desespero terreno.

120 milhões de dólares! Nenhum quadro vale isso, nem o mais belo deles. “O Grito” só merece isso, só vale isso: um grito. Um grito de inconformismo, um grito do absurdo a que chega a vaidade humana, um grito porque a história do rei nu está virando realidade. Ninguém mais expõe e desnuda mentiras, ninguém mais expõe absurdos, por medo de parecer ignorante, por medo de parecer absurdo. Reflito mais um pouco e concluo: quem mandou ler aquela nota na revista, quem mandou assistir àquela notícia no telejornal. Agora já foi, agora tenho de extravasar a revolta. 120 milhões de dólares.

Não sou exatamente o que poderia denominar-se de sujeito culto. O que digo mais adiante nada mais é que uma pesquisa banal feita no Google por um simples mortal inconformado; uma pesquisa tola e superficial. Tivesse sido profunda, sei, só aumentaria a distância entre o absurdo e belo. Enfim, fui espiar quadros e pintores famosos e constatei: sim, há algo errado, profundamente errado!

Vi “Abaporu” de Tarsila do Amaral; sim, dá para perceber o que é, mas aquelas desproporções não me dão a sensação do belo. Vi depois “O Sono” de Salvador Dali; ai, que coisa ridícula! Depois “Guernica”, de Picasso, com aquele boi de cabeça virada e aquelas cabeças humanóides distorcidas, endo a pretensão de revelar o horror da guerra; sim, tela horrorosa. Fiquei em Picasso e fui ver “O acrobata azul”, um desenho que não seria classificado, de vinte, entre os quinze primeiros de qualquer escola de vila do interior. Deprimente. Parei num tal de Peter Brüning, “Beigeschwarz”; com ele descobri que havia coisas piores que as anteriores. Uns traços sem sentido, disformes, sem gosto sequer nas cores. Eu teria vergonha de expor um quadro destes em qualquer dos quartos da minha simples casa e sinto vergonha do gênero humano, vergonha das pessoas que não sentem vergonha em elogiar algo assim. Pinturas rupestres não seriam de tão mau gosto, e de mau gosto minha medida estava cheia. Mudei de cardápio.

Passei rapidamente pela Santa Ceia de Leonardo Da Vinci, menos para conhecê-la, mais para tomar um fôlego. Depois, “Morning Bouque” de Alfred Guillou – veja você mesmo se não a dependuraria orgulhoso em sua sala de visitas. William Turner pintou “Fischer auf See”, beleza pura (ainda não esqueci aqueles 120 malditos milhões e a vergonha que encerram!). Vi também “Moinho”, de Mondrian. Em seguida caí, sim caí ao acaso, num tal de “Maritime Nocturno”. Adolf Hitler não deveria er tido aqueles sonhos megalomaníacos de conquista, ele deveria ter ficado na arte. Foi ele quem pintou quela tela aos 23 anos e ela foi vendida num leilão por 32 mil euros. Não, eu não pagaria isso tudo, mas pagaria bem, é bonita e me orgulharia tê-la na minha sala. Parei de estrangeirismos e fui rapidamente dar uma olhada num catarinense que lembro ter aprendido em tenra infância ser aqui destas terras e ter sido pintor: Victor Meirelles. Várias obras, parei no sensacional “O combate naval de Riachuelo”, este sim, se tivesse grana, pagaria 32 mil euros para ter em minha sala.

Meu inconformismo não cedeu, não obstante tantas coisas belas, diante do primeiro disparate. Não havia digerido sequer um dos 120 milhões. Navegue você mesmo, se não é pedir demais, por pintores famosos, ou por grandes pintores, ou quadros famosos ou quaisquer outros verbetes possíveis para localizar do enlevado e maravilhoso ao grotesco e estapafúrdio do mundo da pintura.  

Às vezes quase chego a acreditar existir alguma força superior que tirou Da Vinci, Mozart e Michelangelo a tempo do tabuleiro, para que não sentissem o que senti. Sim, o rei está nu.

26 de mar. de 2012

CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE?

Roberto Curt Dopheide

Quando eu era criança, observava como o dono da charrete chicoteava seus cavalos. Estes nem mesmo tinham diminuído o ritmo da marcha, nem a chicotada era forte, mas de alguma forma o cocheiro parecia satisfeito em desempenhar seu papel. Os cavalos, por sua vez, não aceleravam seus passos, e não fosse por um leve tremer de seus corpos, quase que com a única intenção de demonstrar ao cocheiro que sua chicotada não fora em vão, se diria que não tinham sequer sentido o impacto.

Olho o povo de meu país e acredito estar enxergando aqueles cavalos. Tão insensíveis já diante de tantos desmandos políticos quanto os cavalos das chicotadas. Nem bem conseguimos digerir o escândalo do café da manhã, já o do almoço nos é empurrado goela abaixo, mas continuamos insensíveis.

Encaminharam-me, dias atrás, um discurso de desalento com a vida pública do senador Jefferson Peres. Quanta tristeza em ver que os poucos exemplos de homens de princípios estejam tão desiludidos quanto eu! De alguma forma ainda era neles que eu depositava alguma esperança. Aí, olho na TV e vejo meu dinheiro sendo gasto em campanhas de utilidade de voto e fico estarrecido. Os slogans querem dar a entender que eu é que sou o responsável pelo fiasco de presidentes e parlamentares! “O seu presidente é igual ao seu voto” ou “Cobre as promessas do parlamentar em que votou”. Epa!

Meu voto não é analfabeto, meu voto sempre soube falar e escrever ao menos o português básico. Como cobrar as promessas de um parlamentar? Informava-me ao máximo sobre o candidato que mereceu meu voto. Lia, discutia, procurava ser o famoso “formador de opinião”... e de repente meu candidato, tão escolhido a dedo, não era eleito. A massa, mantida propositadamente desinformada, escolhia sanguessugas e outros bichos nefastos! Quando eu finalmente conseguia emplacar um candidato... o seu voto secreto em questões importantes o escondia no cômodo anonimato do “agradar a todos”... Quando o voto era aberto e eu lhe remetia um e-mail de protesto, um sub-assessor do assessor do assessor me respondia, provavelmente num hilário histórico-padrão, um cômodo e lacônico “Agradecemos sua colaboração!” ou um “Estamos analisando sua proposta”, para depois nunca mais ouvir falar do assunto. Nem ao menos me informavam que minha proposta tivesse sido vista como impraticável, por exemplo!  Que instrumento tem o pobre eleitor, após dar um mandato de 8 anos a um senador, por exemplo, para “cobrar” alguma mancada que este dê após 3 meses de mandato? Engoli-lo por mais 7 anos e nove meses, apenas isto! Depois, trocá-lo por outro com o mesmo risco ou pior, vê-lo sendo reconduzido pela massa mantida propositadamente desinformada. Mais 8 anos... Seis eleições de senador bastam para desanimar qualquer eleitor... são 48 anos que, somados aos 16 da idade mínima para votar, totalizam a idade de 64 anos.

E ainda querem fazer crer ao povo que a máxima do “cada povo tem o governo que merece” é verdadeira! O exemplo não pode vir do desinformado. O exemplo tem de vir de quem comanda, de quem tem nível intelectual mais avançado! Dizer que cada povo tem o governo que merece seria como dizer que cada filho tem o pai que merece. Seria colocar na mão de seus filhos de 8 ou 10 ou mesmo de 16 anos, apenas por constituírem a maioria numérica da casa, a responsabilidade de definir onde você vai trabalhar, morar e que carro comprar, por exemplo... e depois responsabilizá-los pelas conseqüências, eximindo-se comodamente de qualquer responsabilidade, pois, “cada filho tem o pai que merece”.

21 de set. de 2011

CANSADO

Estou cansado de estar cansado,
cansado de tanto enxergar;
cansado de ver o abnegado,
cansado de tanto cansar!
Da justiça segura e lenta;
dos acordos, do não ajuizar;
do insucesso de quem luta e tenta,
do que vence sem se esforçar.

Cansado de ver livres escravos,
da vil escravidão reprimida.
Dos tombos que levam os bravos;
da democracia enrustida.
Dos roubos cobertos de flores.
Das frases do que não é.
Das juras de falsos amores,
de gente atirando em seu pé.

Cansado da hipocrisia reinante,
dos selvagens civilizados;
do honesto que vive errante.
estou cansado dos cansados.
Exausto dos pretensos pensantes,
tão nobres frente aos animais;
dos inteligentes ignorantes,
dos crânios irracionais.

Cansado da política vil
dos corruptos de cara limpa;
dos coitados de um país varonil,
cansados da corja supimpa.
Do sabiá de manhã cantando
nos ramos que ainda restam;
dos jumentos ornejando,
pensando que ainda prestam.

Cansado dos leitos de pés d’ouro
com tantos dormindo no chão;
dos que distribuem o tesouro
roubando com a outra mão.
Das fezes a céu aberto,
do cheiro acre do esgoto;
dos que acreditam no certo,
do “idealista” que é um escroto.

Cansado do que deve e não paga.
Do que, não pagando, não nega.
Do coitado que na rua vaga,
crendo ainda que a justiça é cega.
Do irresponsável que achincalha,
do de boa fé que erra,
do mau que só avacalha;
cansado do bom que se ferra.

Cansado da música que destoa,
do livro que não se lê.
Dos profetas que rezam loas,
da chaga que não se vê.
Cansado da falsidade mundana
travestida de razão;
do líder de mente insana
que se pensa gigante, e é anão.

Cansado da enganação careta
de quem vive só fingindo.
Do bêbado na valeta,
do deputado sorrindo.
De padres, bispos, pastores,
de mentirosos de toda gama;
de tantos falsos atores,
dos que chafurdam na lama.

Cansado dos falsos colegas
que dizem que são amigos.
Dos vazios, dos ocos, dos piegas
se escapando dos perigos.
Dos carros e da fumaça,
do excremento no rio;
do que come, do que “traça”,
dos que se fingem no cio.

Cansado dos livros sagrados,
das crenças, seitas, quetais;
dos que se dizem irmanados
constrangendo os animais.
Dos abjetos profetas da glória,
dos conquistadores de terra e mar,
dos escrotos heróis da história,
dos que na lama, se pensam no ar.

Cansado de países, bandeiras;
de limites, fronteiras, da língua.
Dos soldados nas fileiras,
dos miseráveis à míngua.
Cansado de campos empestados,
das praias vertendo lixo,
dos matagais ressecados,
do marginal que semelha um bicho.

Do bárbaro que o ódio destila.
Do que jura amor, se diz irmão.
Da falsidade que grassa tranqüila
e do crescer da ingratidão.
Dos ouvidos que escutam,
dos olhos que dizem ver;
dos que desdenham, labutam;
dos descrentes que dizem crer...

Cansado de belas mensagens,
das vivas ao otimismo.
Dos que de costas, nas paisagens,
sequer enxergam o abismo.
Dos euros, das libras, dos ouros,
dos países em decadência.
Dos que nos roubam tesouros
sem ligar para a decência.

Dos amores prometidos,
das promessas descumpridas,
dos sentimentos enrustidos,
das convicções reprimidas.
Da aldeia global e irmanada
e do gado que anda na rua:
dos que tangem a manada,
fingindo viver na lua.

Dos tolos que se acham sábios
e dos que sabendo se calam.
Dos jornais, dos alfarrábios
que só desgraça exalam.
Dos que multiplicam e dividem;
dos que lêem o que não escrevem.
Dos que afagando, agridem;
dos que temendo, não devem.

Até mesmo do cansaço
confesso, cansado estou!
De cultivar nervos de aço,
cansado de ser o que sou.
Cansado de Deus, do diabo,
dos sonhos e da realidade;
dos que ignoram seu rabo,
dos que desprezam a verdade.

Cansado da burrice que impera,
da rua entupida de asneira;
dos sonhos e da quimera,
cansado de ouvir besteira.
Do próprio cansaço, cansado,
esmorecido de tanto teimar!
Teimando, me sinto abobado,
Cansado de tanto cansar!

5 de set. de 2011

BEBEDEIRA

Difícil de dizer...
Coisas que são difíceis de dizer quando você está  bêbado:
Indubitavelmente
Preliminarmente
Proliferação
Inconstitucional
Coisas que são extremamente difíceis de dizer quando você está bêbado:
Especificidade
Transubstanciado
Verossimilhança
Três tigres
Coisas que são totalmente impossíveis de dizer quando você está bêbado:
- Meu Deus, que mulher feia!
- Chega, já bebi demais.
- Sai fora, você não é do meu tipo...


A morte do Marcão
Marcão era um antigo funcionário de uma cervejaria. Ele era feliz no trabalho, embora seu sonho fosse ser degustador de cerveja, bebida que adorava. Certa vez, no turno da noite, ele caiu dentro de um tonel de cerveja. Pela manhã, o vigia deu a triste notícia:
- É com profundo sofrimento que informo que o Marcão se desequilibrou, caiu no tonel de cerveja e morreu afogado.
Um grande amigo de Marcão com a voz muito triste pergunta:
- Meu Deus! Será que ele sofreu?
O vigia então responde:
- Acredito que não, porque, segundo as imagens da câmera de segurança, ele chegou a sair três vezes do tonel para mijar...


Diversas de bebuns...
- Por que é que você bebe?
- Para afogar as mágoas!
- E resolve?
- Que nada! Elas aprenderam a nadar!

CARÁTER E AMOR PRÓPRIO


Somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo de vinho. (Eduardo Galeano)

Nenhum pássaro voará alto demais se estiver voando por suas próprias asas. (William Blake)

Aquele que não gosta de si próprio, geralmente tem razão. (Coco Chanel)

Querer que exista amor sem que haja antes o amor-próprio, é como querer o dia sem que haja antes a noite. (Roberto Curt Dopheide)

Saber resistir à violência é forte, mas vulgar; saber resistir à calúnia e aos motejos é maior esforço, e mais raro. (Alexandre Herculano)


1 de set. de 2011

AMOR RIMA COM PAI

Sento-me em silêncio. Teu semblante me vem à lembrança.
Custo tanto crer que você também já foi criança!
Cada ruga do rosto, cada cabelo branco guarda histórias
que o passar dos anos foi transformando em memórias.

Quantos romances guardam, quantas lágrimas, risos e lições?
E tuas mãos, quantas obras fizeram, quantas boas ações?
Quanto brilho despertaste em meus orgulhosos olhos de guri,
que dói-me tanto, agora, não ter-te comigo aqui?

Donde, com pouco estudo, conseguiste tanta sabedoria?
Donde os conselhos, o carinho, o amor, a alegria?
Pergunto: De que santa essência afinal se faz um pai
que, vivamos mil anos, do pensamento nunca sai?

Lembranças! A bola, a bicicleta, o rolimã, o papagaio.
Nas minhas falhas, um bondoso olhar de soslaio...
O entrever de meus mais secretos pensamentos;
o alento aos problemas, o acalmar de meus tormentos!

Quantas dívidas pagaste, quanto sono te foi perdido?
Quantos sonhos abandonaste, meu velho pai querido?
Quantas lágrimas secretas e invisíveis tua face viu rolar?
Quantas palavras a sensatez de um coração de ouro fez calar?

Este foste tu, meu pai querido, em pensamento injustiçado
tantas vezes, em minha ingênua adolescência. E, malgrado,
achando o jovem filho saber tudo, hoje vê-se, não sabia nada!
Sem tua bússola, quão mais difícil teria sido a caminhada!

Terei conseguido, como pai, aplainar tão bem os caminhos
de meus próprios filhos, afastando alguns espinhos?
Talvez cada ser humano, em seu âmago mais profundo,
tenha certeza de ser seu pai, o artífice do mundo.

Donde obter os conceitos de justiça, liberdade, retidão?
Onde colher os valores da generosidade, da tolerância, do perdão,
senão no caráter ditoso e forte de um pai de fibra e brilho,
vibrante a cada passo justo e honesto de seu filho?

Sinto, entretanto, meu velho, que bem oculto algo me escondestes.
Não sei bem onde, se no baú, no sótão, no bolso ou nas vestes...
Eu achava ser esperto, mostrava-te as boas ações e escondia o mal.
Fala a verdade, pai querido: tinhas guardada uma bola de cristal!

A tudo se atreve o tempo, já dizia padre Vieira...
e transcorreram, a tua e a minha vida de forma tão ligeira!
Cadê a atiradeira, a pandorga, o pião, a bola, o carrinho?
Por que foi-se tudo isso e só eu fiquei aqui sozinho?

Sim, é certo, estava escrito, até ao mármore o tempo se aventura.
“Do pó vieste, ao pó tornarás”, está nas folhas da escritura.
Mas pela lembrança de um pai, mesmo aos deuses se engana.
Foste meu porto, ontem e hoje, por toda minha vida insana!

Te foste. Foi-se a sabedoria, a bola de cristal. Ficou a lembrança.
O corpo é cinza e se foi. Ficou sozinha aqui meu pai, tua criança.
Tua criança que amastes. Te foste, como tudo, afinal, se vai.
Mas te afianço: sempre em minha vida, amor rimará com pai!

Roberto Curt Dopheide, agosto 2010.

CAMBALACHO

"CAMBALACHE" - Fora da Lei - Raul Seixas (versão)

Que o mundo foi e será uma porcaria eu já sei... em 506 e em 2000 também.
Que sempre houve ladrões, maquiavélicos, safados,
Contentes e frustrados, valores, confusão...
Mas que o século vinte é uma praga de maldade e lixo, já não há quem negue.
Vivemos atolados na lameira e no mesmo lodo, todos manuseados!

Hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor...
Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador...
Tudo é igual, nada é melhor.
É o mesmo um burro que um bom professor, sem diferir, é sim senhor!
Tanto no norte ou como no sul;
Se um vive na impostura... ou profana sua missão.
Dá no mesmo seja padre, carvoeiro, rei de paus, cara-dura ou senador!

Que falta de respeito, que afronta com a razão!
Qualquer é um "senhor", qualquer é um ladrão!
Misturam-se Beethoven, Ringo Starr e Napoleão
E o nobre Dom Juan, John Lennon e San Martín.
Igual como uma frente de vitrine esses bagunceiros se misturam à vida!
Feridos como sabres já sem ponta, vão chorar a bíblia junto ao aquecedor!

Século XX "Cambalache" problemático e febril.
Quem não chora não mama, quem não rouba é um imbecil...
Já não dá mais.... força que dá!...
Que lá no inferno nos vamo' encontrar...
Não penses mais, senta-te ao lado!
Que a ninguém importa se nasceste honrado!
Se é o mesmo que trabalha noite e dia como um boi
Se é o que vive na fartura, se é o que mata, se é o que cura
Sou mesmo um fora-da-lei!...
(Letra e música original de Enrique Santos Discépolo, 1935)

PEDRO II E DONA AMÉLIA

(Antes de embarcar para Portugal, acompanhando D. Pedro I, ambos então apenas Duques de Bragança, em vista do falecimento de D. João VI, deixou D. Amélia de Leuchtenberg Eichstaedt e Bragança – austríaca de nascimento – a carta abaixo, dirigida ao pequeno D. Pedro II, filho do casamento anterior de D. Pedro I, que enviuvara, e então com 5 anos, que ficava no Brasil como sucessor do pai.) É de uma beleza e linguajar ímpar, ainda mais considerando a nacionalidade da autora. Quantos de nossos dirigentes políticos atuais, quantas primeiras damas saberiam tecer um texto com tanta ternura e num português tão correto?


“Adeus, menino querido, delícia de minh’alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado; adeus, para sempre, adeus! Quanto és formoso, neste teu repouso. Meus olhos chorosos não se podem fartar de te contemplar; a majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua engraçadíssima fronte de um resplendor misterioso, que fascina a mente.

Eis o espetáculo mais tocante que a Terra pode oferecer. Quanta grandeza, quanta fraqueza a humanidade encerra, representada por uma criança. Uma coroa e um brinco, um trono e um berço! A púrpura ainda não serve senão para estofo e aquele que comanda exércitos e rege um império carece de todos os desvelos de uma mãe.

Ah!, querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se minhas entranhas te houvessem concebido, nenhum poder valeria para me separar de ti, nenhuma força te arrancaria de meus braços. Prostrada aos pés daqueles mesmos que abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre lágrimas: ‘Não vede mais em mim a Imperatriz, mas uma mãe desesperada. Permiti que eu vigie nosso tesouro. Vós o quereis seguro e bem tratado e quem o haveria de guardar e cuidar com maior devoção?  Se não posso ficar a título de mãe, eu serei sua criada ou sua escrava.’

Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me pertences senão pelo amor que dediquei ao teu augusto pai; um dever sagrado me obriga a acompanhá-lo em seu exílio, através dos mares e terras estranhas. Adeus, pois, para sempre, adeus!

Mães brasileiras, vós que sois meigas e afagadoras de vossos filhinhos, a par das rolas de vossos bosques e dos beija-flores das campinas floridas, supri minha voz; adotai o órfão coroado, dai-lhe todo um lugar em vossa família e em vosso coração.

Ornai seu leito com as folhas do arbusto constitucional, embalsamai-o com as mais ricas flores de vossa eterna primavera, entrançai o jasmim, a baunilha, a rosa, o cinamomo, para coroar a mimosa testa, quando o pesado diadema de ouro o houver machucado.

Alimentai-o com a ambrosia das mais saborosas frutas: a ata, o ananás, a cana melíflua; acalentai-o à suave entoada de vossas maviosas modinhas. 
                                                            
Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, a sutil víbora, as cruéis jararacas e também os vis aduladores, que envenenam o ar que se respira nas Cortes.

Se a maldade e a traição lhe prepararem ciladas, vós mesmas armai em sua defesa vossos esposos, com a espada, o mosquete e a baioneta. Ensinai à sua voz tenra as palavras de misericórdia, que consolam o infortúnio, as palavras de patriotismo, que exaltam as almas generosas e, de vez em quando, sussurrai a seu ouvido o nome de sua mãe de adoção.

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor de felicidade de vosso país e de vosso povo; ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no paraíso. Eu vo-lo entrego agora e sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura. Ei-lo adormecido.

Brasileiras, eu vos imploro que não o acordeis antes que eu me retire. A boquinha, molhada de meu pranto, ri-se à semelhança do botão de rosa ensopado do orvalho matutino. Ele ri e o pai e a mãe o abandonam para sempre.

Adeus, órfão Imperador, vítima de tua grandeza, antes que a saibas conhecer. Adeus, anjo de inocência e de formosura, adeus!

Toma este beijo, e este...  e este último. Adeus para sempre, adeus!”

ass.: Amélia, Duquesa de Bragança.

(extraído do Dicionário “História do Brasil”)

O TREM DE FERRO

Num trem, em grande disparada,
pai e filho corriam e ambos o que viam?

As montanhas, os montes, os horizontes,
O matagal cerrado, os penedos, os rochedos, os arvoredos...
Tudo a correr com a rapidez do vento tresloucado!
E o trem, que era, em verdade, o que corria,
Parecia estar parado!

A criança, o petiz, cheio de espanto, lhe perguntou:
- "Papai! Por que é que tudo, ao longe, está correndo tanto
e o trem daqui não sai?"

Os passageiros riam, pois sabiam que o petiz se enganava!
O trem, que parecia estar imóvel,
Era, de fato, o que corria e voava.

Dos passageiros todos, um somente nem de leve sorriu.
E, então, os passageiros riam dele, porque ele não riu!
E o poeta (era um poeta...) disse então:
- É natural, senhores, o engano do petiz iludido:
Muitas vezes, a nós a mesma coisa já tem acontecido.

E vós, ó meus senhores, os cientistas, os sábios, os doutores,
Caís no mesmo engano lisonjeiro.
Pois, afinal, todos nós nos enganamos,
Quando, todos os dias, exclamamos:
-"Como é que o tempo passa tão ligeiro!"
Quando nós é que passamos!

(Catulo da Paixão Cearense)

30 de ago. de 2011

FOGO DE CONSELHO

Está escuro, a noite cai silente...
Nas sombras da mata, da floresta,
vaga-lumes e grilos fazem festa
sob um belo céu de luar fulgente...

O burburinho soa pelos cantos:
ansiosos preparam-se os lobinhos.
Vistos de longe, assemelham-se a anjinhos:
rostos lindos, de fazer inveja aos santos!

Surge então, das trevas essa chama:
faz-se luz, acende-se a fogueira,
saudando crianças e jovens em fileira,
à confraternização todos conclama.

Ao tremeluzir dos vaga-lumes e do fogo,
cada chefe checa o último detalhe,
preocupado que o seu grupo não falhe
no teatro que sucede, qual um jogo...

Jovem, o tempo passa tão ligeiro!
Cada estrela que te contempla hoje
amanhã se vai e foge,
como vai-se do lar o escoteiro...

Um dia, adulto, terás te afastado
deste fogo de conselho tão saudoso!
Olharás para trás e orgulhoso
lembrarás de cada chefe abnegado...

No coração, fica acesa a centelha.
Um dia trouxe aos olhos teus o brilho
que agora brilha nos olhos do teu filho,
E em ti, pai, mãe, ele se espelha.

Lobinho, escoteiro: onde estejas, sê leal!
Os chefes são passado, já se foram.
São estrelas que hoje do céu olham
para ver se seguiste o ideal...

Jamais esquecerás os cantos entoados
nem o cheiro da fogueira crepitante!
Vivas mil anos ou só mais um instante,
são momentos para sempre relembrados!

Roberto Curt Dopheide

29 de ago. de 2011

GOSTO DAS MULHERES SIMPLES


Gosto das mulheres simples, das mulheres que são bonitas porque são normais e simples.

Me assusto um pouco com mulheres “perfeitas”. Comparo-as a um pôr do sol perfeito: ele me leva à contemplação apenas. Não consigo olhar um pôr do sol perfeito e imaginar-me  ao esmo tempo conversando, caminhando, rindo, chorando, abraçando, brincando, chupando um sorvete ou comendo uma pêra... só contemplando...

Mulheres de corpo perfeito são para contemplar...Procuro e gosto das mulheres simples porque sua beleza está na simplicidade e na aceitação de si mesmas.

A perfeição é um sonho e sonhos se desvanecem no ar. Gosto das mulheres simples, normalmente bonitas, porque elas são realidade. Elas são como o prato mais simples e gostoso na casa da mamãe. Mulheres perfeitas são com pratos chiques de um restaurante luxuoso de Paris: lindas quando contempladas, mas que não me acalmam o apetite além de inacessíveis aos seres humanos normais.

Tenho medo de tocar seios que parecem cristais de tão perfeitos. Seios normais, que talvez já amamentaram, transmitem um prazer de amor profundo, de vida e de entrega total.

Reluto em beijar bocas com dentes perfeitos de marfim. Parecem ter sido feitos só para sorrir e contemplar, não para beijar. Me distancio de lábios desenhados à perfeição, com medo de que quando falem, nada transmitam: têm beleza mas podem não ter conteúdo.

Tenho medo de acariciar coxas que parecem obras de arte e por isso só devem ser admiradas a uma certa distância. Entretanto, gosto quando estão lisas.

Temo fazer carinhos em cabelos que parecem plumas de deuses, cujo alinhamento e ordem podem ser comprometidos ao menor dos toques. Fico preocupado em que cabeças com cabelos perfeitos prefiram manter sua perfeição a receber um carinho. Gosto do cabelo das mulheres bonitas e normais, que podem ser tocados, acariciados, desarrumados e que ainda assim transmitem fascínio.

Fico estático diante de bundas arrebitadas e totalmente perfeitas – transmitem um quê de mulher-objeto, fruto de um consumismo que me assusta um pouco, atributo de dançarina de televisão, uvas da parreira mais alta, anel de diamante que não foi feito para usar. Gosto de bundas que possam ser tocadas, mordidas de leve, beijadas e apalpadas com sofreguidão!

Gosto de mulheres simples e bonitas cujo interior eu não vejo, mas posso sentir...mulheres perfeitas me transmitem uma sensação de vazio, de oco...

Tolero com gosto uma gordurinha na barriga pois isso me desobriga de também ser perfeito.

Gosto de uma ou algumas cicatrizes: são sinais de dores já passadas e quem já sofreu é mais sensível à sensibilidade. Não me importo com uma estriazinha ou um pouco de celulite, pois são sinais de que não estou lidando com uma escrava de seu próprio corpo, mas um corpo que se entrega como escrava àquele de quem ela gosta.

Vejo com bons olhos uma manchinha, um sinalzinho. Desde que o conteúdo seja gostoso, pleno e feminino, não dou valor excessivo à embalagem.

Gosto de mulheres carinhosas, ávidas e logo adiante calmas, que conheçam o momento do carinho, da avidez e da calma. Gosto de mulheres que me aceitam como sou sem a busca frenética por um super-homem que não sou. Gosto de mulheres que sintam prazer em que as aceite como são. Gosto de me entregar a mulheres simples e bonitas que se entregam. Musas perfeitas não fazem isso.

Gosto de olhos expressivos porque sempre são bonitos, ao invés dos olhos perfeitos que nada expressam ou transmitem. Gosto de olhos normais de mulheres simples que me olham com o brilho de um sol que aquece, àqueles perfeitos que parecem estrelas frias e inacessíveis, apesar do brilho...

Gosto de gemidos naturais, espontâneos e verdadeiros tanto quanto do silêncio, desde que exista energia de lado a lado, ao invés de gritinhos fingidos que não me tocam.

Gosto de mulheres simples e bonitas que se entregam totalmente, que têm freqüência e sintonia afinadas, que pulsem num ritmo de atração, cujas ondas de emoção se encontrem com as minhas e formem um só pulsar, dobrando a emoção do momento.

Se os pés forem bonitos, de preferência pequeninos e mimosos, podem ter uma unha machucada ou a sola um pouco mais grossa, pois denotam caminhadas. Gosto de quem caminha, pois o caminho é sempre árduo para pessoas normais e por isso os que caminham valorizam bem mais os bons momentos de descanso e de prazer. Pés muito perfeitos me dão medo por não conhecerem quaisquer caminhos, de viverem sempre no ostracismo, sempre para o alto.

Gosto de mãos delicadas e limpas, mas não faço questão de unhas perfeitas, apenas  cuidadas. Mãos sempre perfeitas muitas vezes não tocam o que tocam mãos simples, mas carinhosas. Se, além disso, tiverem uma cicatriz de um corte, um calo que demonstra que são mãos que trabalham, eu não me importo: mãos que conhecem o trabalho são mãos de uma sensibilidade que ultrapassa o simples cuidar da pele e tocam e acariciam com dobrado carinho àqueles de quem elas gostam. Mãos sempre perfeitas me preocupam porque descansam demais e provavelmente se cansarão ao primeiro carinho, ao primeiro obstáculo.
Mãos acostumadas à lida são mãos que transmitem a energia que vem do fundo da alma, dos recônditos do coração... 

Gosto de mulheres com corpos que se entregam, sem querer esconder qualquer parte por não ser perfeita, pois a maior perfeição é a total entrega. Sim, adoro mulheres simples e bonitas que se entregam tanto de corpo quanto de alma, pois elas é que na verdade são as mulheres perfeitas!

Roberto Curt Dopheide